THE POEM LIES IN THE CLOUD

RENÉ AUBRY | SÉDUCTION

Meu amor, falar do belo é seguir com o olhar os teus passos nus no soalho, esculpidos por divina arte no desenho dos teu pés. Admirar-te e esperar-te no conforto da minha alma é saber que vens pousar a tua face no meu ombro a cada dia, é procurar-te no escuro, encontrar-te num fio de respiração que arde em desejo, é morrer nos teus braços todos os dias e provar da imortalidade de que somos capazes.

Meu amor, saber-te em mim, é conhecer o perfume da tua pele em qualquer lugar do mundo e virar a cabeça para te encontrar de alguma forma, mesmo sabendo que não é ali que estás. Fechar os olhos é ver-te nos olhos da minha alma, é experimentar a paz que só o amor pode proporcionar, é viver a tranquilidade que só o amor consegue erguer em campos minados, contra todas as batalhas de que se faz a vida que acontece do outro lado da nossa janela.

Sim, meu amor, eu sei que acordar e não me lembrar de um sonho é certamente esquecer-me de ti por um momento, é perder-te num fio de memória que me foge no amanhecer. Desculpa. às vezes vou atrás de pensamentos mundanos que vivem fora do nosso mundo, que começa nas janelas da nossa casa e se faz de rios e vales verdejantes até à outra extremidade da casa.

Meu amor, encontra-me no escuro, segue-me o bater do coração, estende as mãos, puxa-me para ti para que não me perca eu de mim próprio, se há matéria de que sou feito é da tua existência, pelo que se me encontrares e me abraçares estarás a abraçar-te a ti também, só assim vale a pena existir, amor. Deixa-me segredar-te ao ouvido um poema luminoso para que no escuro possas ver o meu sorriso que mais não é que a tua graça em forma de desejos e sentimentos que palpitam à nossa volta, neste quarto escuro onde fugimos um do outro só para nos encontrarmos e encontrarmos novamente, repetindo tudo outra vez.

Meu amor, encontra-me num fundo de desejo ajardinado, em que todas as flores se deitam connosco para se abrirem à luz do dia, na abertura dos olhos nossos e das janelas que nos abrigam enquanto dormimos.

Meu amor, se me faço de mais perguntas que de respostas, é porque sonho contigo, e os sonhos são a resposta a perguntas que ainda não foram feitas, e nesta riqueza de tanto para aprender reside a única certeza que desejo sempre ter, que é saber que tudo o que importa é o amor. O teu, o meu, o amor que se põe em tudo o que se faz, para que tudo valha a pena, para que tudo tenha propósito e relevância.

Meu amor, meu amor, só me assalta um pensamento que se liga numa matéria que desconheço, como que uma pedra preciosa nunca antes vista, que liga mil minerais numa pedra-pergunta: Quem és tu? Conhecemo-nos? Sabes que vivo em paz com a incerteza e não temo o desconhecido, apenas te quero reconhecer quando vieres.