TRATADOS

SON LUX | EASY (FEAT. WOODKID, LIVE AT MONTREUX JAZZ FESTIVAL 2016)

Não foram raras as vezes que ouvi do António que “os números são letras sem asas”, explicando ele e muito bem que por isso eram letras desprovidas da capacidade de sonhar, de criar, de se reinventarem a seu bel-prazer. Somos amigos desde sempre, hoje sabemos bem que para sempre, e temos em comum, entre tantas outras coisas, o gosto pelo potencial poético das letras e um certo jeito para os números, mas tão só apenas para com eles desenharmos complexas equações que representem certezas, possibilidades e possíveis soluções, na esfera dos cenários da vida mundana.

Se não se fazem poemas com números, também não se fazem desenhos lógicos com letras, é lógico – logo não penso – penso – logo existo.
E é então que, desenhada a equação, com a precisão que só a matemática pode garantir, procuramos nas entrelinhas da mesma toda a poesia, com toda a subjectividade necessária para questionar todas as certezas “absolutas” e encontrar novas formas de resolver velhos problemas que afinal precisam apenas de respirar sem o mofo das velhas soluções.

Costumamos regar este método com um bom tinto escolhido pelo António, aí não me meto e toda a minha garrafeira se vai fazendo dos vinhos que ele vai escolhendo, eu repetindo, claro. Toda a cópia de boas práticas é para mim legitima e, acima de tudo, um sinal da inteligência que se faz sempre acompanhar, ombro a ombro, da humildade.

Para compreender bem os números, analisar os mesmos e tomar decisões certas para cada contexto, é portanto fundamental ter uma considerável dose de poesia para encontrar a sabedoria das possibilidades numa estrutura de certezas.

A nossa paixão pelos números reside precisamente na humildade que os verdadeiros matemáticos têm. Qualquer grande matemático é também um poeta, assim como qualquer pessoa que se alimente dos números sem que reconheça e compreenda a força e importância das palavras na lógica do universo, não deverá ser mais do que um guarda-livros dos seus próprios livros, de páginas em branco, sem mundo para contar.