UM CHAT QUE ACONTECE DENTRO DE UMA MOLDURA

BRYAN FERRY | AVONMORE

Um filme, um corpo inerte, absoluto repouso na almofada do fim do dia, o meu corpo cai do meu dia abaixo, num fim do dia de céu que ameaça pegar fogo à noite.Uma vizinha que toca à porta, talvez por uma cebola, pena, não se fará o refogado lá em casa hoje, o corpo pesa-me mais do que o altruísmo, respeitem-me o Bryan Ferry por favor, que nunca tendo sido um génio sempre foi genial. A intenção é pura, bem sei, bem como o respeito pelo tempo que me tapa o corpo e me aquece numa noite que se vai fazer fria.


Uma mensagem por Instagram, já sem sem Bryan Ferry, já só fim: “és giro e tens piada”. Tu também? É isso? Assim?


“Mas olha, não leves isso muito a sério” – digo-lhe – “Tenho mais jeito para focar objectos e paisagens, fazer enquadramentos, registar momentos sem qualquer valor que não seja para o meu olhar para as coisas”.
Ela não acredita, diz que não, que só posso ser bom no retrato. “Não, no retrato então é que não!” – e escrevo-o quase a gritar.
Não desiste – “A sensibilidade de ver a beleza no que é comum, o sentido estético apurado, os elementos arrumados a regra e esquadro, a cor ou a escolha da sua ausência…” – e manda um boneco bem disposto que parece querer mostrar-me que me apanhou.
“Mas tu não vês, rapariga, a desordem obsessiva e compulsiva que está por detrás dessa forma de expressão, e que é tão apenas fruto de um artista que teimo em ver em mim, que duvido que exista até no meu imaginário mais ligado à terra, quanto mais na tinta que acabo por imprimir em cadernos de bolso no correr dos meus dias?” – Penso-o, mas não o digo. O que lhe digo, isso sim, é – “Eu não sou o meu quadro, sou apenas a moldura que o suporta”.