UM CONTO COM TODO O FUTURO PARA TRÁS

JP SIMÕES | 1970 (RETRATO)

É um quadrado de dois por dois metros,
A sua casa feita de uma inocência desconhecida,
Uma pena que se fez desgraça,
Naquilo que seria a vida de um par de crianças,
Dois metros por dois metros de algo que António jamais entendeu.

Dez minutos de céu pela manhã,
Outros dez pela tarde,
Feitas de frio e de calor,
As estações e as datas vão-se perguntando aos guardas,
Como se vão perguntado os resultados do Benfica.

E assim se vai passar uma vida,
Sabe lá António de que tamanho se fará a sua,
Por vezes deseja-a curta,
Outras vezes imagina-se um homem poder viver uma longa existência apenas dentro de sua mente a viver no seu corpo arrendado.

Sabe Deus… Deus lá sabe a pena que ele cumpre,
Porque ele cumpre outra, de outra pessoa qualquer,
Mas esse assunto está encerrado, assim como ele,
Numa casa sua de dois por dois metros,
Só feita de uma cama de solteiro com vista para a retrete.

“Perpétua” – disseram-lhe,
E ele só soube olhar para a janela,
Medir a palavra pelos gritos dos miúdos,
Pelas palavras dos pais que a repetiam incrédulos,
Que a repetiam em intermináveis interrogações,

E a mente de António já livre,
Fora da janela, num campo de oliveiras,
De calções de fazenda e camisa branca,
Como que nascendo outra vez,
Só para se ver morrer aos poucos.

Ao fundo a preocupação dos pais,
De quem já não acredita em nada e duvida de tudo.
Em António já nada importa nada,
Esta ali a pagar outra dívida qualquer que não dele.
Dois por dois metros de uma casa para a vida…

“Aqui cabe-me o pensamento, mas não caberá por muito tempo a memória. E com a memória se vai a saudade. Como vive um homem com pensamento, mas sem memória nem saudade”

Dois por dois metros apenas feitos de futuro.
Sem saudade nem recordações só se vive de futuro,
E esse está curto de se ver.