UM POEMA ESCRITO NO BORDO DE UM PIANO SEM FIM.

CHARLIE HADEN & GONZALO RUBALCABA | EN LA ORILLA DEL MUN DO

Pediu-lhe primeiro que lhe dissesse o que gostava mais nela para logo de seguida lhe pedir que lhe escrevesse um poema, como se a prosa poética fosse assim, uma colecção de bolso de palavras como peças que, dê por onde der, encaixam sempre umas nas outras acabando numa paisagem que nos corta o fôlego.


E a noite cortava-se então por uma lâmina afiada de vento que haveria de fazer golpes na história de cada um, ludibriando-os com um mapa de estrelas que brilhava sobre a cidade apagada de luz e de vidas.
Saberia alguém, que não o seu coração, quantas vezes já ele havia nascido depois de se ter emocionado pela primeira vez quando, nos braços da mãe, tomou o primeiro trago de ar sem água à medida que a escuridão se ia esfumando em intensidades mais fracas de preto e, num tempo que se seguiu e que não sabia ainda medir, em tons de cinzas escuros que iam ficando mais claros até darem lugar à cor misturada a pincéis de pelo à solta?


Recordava-se que não se lembrava, isso sim, recordava-se perfeitamente que não se lembrada de nada, mas a beleza dos sonhos que trazia em si lembravam-no de que dessa obra de arte abstracta multicolor se fizeram, muito lentamente, formas.
“De que outra forma poderia ser se não assim?” – Questionou ele a sua memória, essa que o recordava, conspirando junta com a sua imaginação, de que ele tinha então acabado de chegar a uma terra prometida com desenhos de perfeita geometria e em que se parássemos o mundo que estivéssemos a ver a qualquer momento, estaríamos perante de uma obra de arte estática com todos os sonhos desejados, nela expressa e contida, pincelada ou fotografada, enquadrada numa beleza infinita. Era a existência de estar ali, tantas cores passadas.

Assim tentou explicar o milagre da vida na prosa poética que só conseguiu esculpir na companhia de um bom disco, já só, em casa, esperando que ela ficasse bem sem o poema que ela tanto lhe havia pedido, como se as linhas de um poema saíssem à rua agarradas ao molho das chaves de casa.
António começou por ouvir o silêncio que o esperava em casa, estendendo um corpo que fez morto para a ocasião, ali ficando, de alma esticada a assistir aos ruídos de que se faz o silêncio.

O disco veio depois, quando já de um corpo inerte apenas saía vontade sem carga, como que um desejo que levitava à frente dos seus olhos, recordando-o os tempos em que as cores se misturavam em nada do que entendia mas que que se espraiavam belas e livres, sem a obrigação de fazerem formas.

E as primeiras notas de um piano de cauda não tardaram a envolver as paredes que ganharam uma espessura confortável, macia e aveludada, que lhe aqueceu a casa. Paredes onde pousavam as notas que desapareciam para dar lugar às seguintes.
E foi nas paredes do seu canto privado, ali onde o mundo quadrado acaba em costa com fim, “en la orilla del mundo“, que foi invadido por toda a poesia que um contrabaixo podia imprimir definitivamente na sua alma, páginas e páginas de vida.

E apanhou esse comboio sem se preocupar em pedir um bilhete de volta, preparado para não voltar mais. As músicas são como comboios, onde pára uma passam mais tantas, e com elas se pode dar a volta ao mundo sem ter necessariamente que voltar aos lugares bonitos que deixamos para trás. Recordou-se o que havia dito à rapariga que deixara à porta da casa dela. E não tendo dúvidas sobre quantas vezes na vida já havia nascido de novo perguntou-se então “Mais quantas vidas terei eu?”, só lhe saindo um tranquilo e cúmplice sorriso, entre si, a vida e a alma.

Pensou em todos os sonhos desperdiçados por milhões de pessoas que não sabem que há vida para além da morte de um poema e que se deixam morrer à primeira vez, desconhecendo que em cada vez que morremos podemos escolher nascer novamente, melhores, mais seguros, mais fortes e mais sábios e felizes. Quantas pessoas felizes não se fariam com os sonhos mortos de cada uma dessas pessoas que morrem como quem vira a página de um livro em branco?

E se foi nas notas do piano de cauda que nasceu este poema em prosa, foi na companhia do contrabaixo que se finou, mostrando que “en la orilla del mundo” é tão só uma rábula e que o mundo não acaba numa costa com fim e é, afinal, redondo, para nos dar a mão em todos os momentos, transformando o escuro em luz, virando uma página de medo em esperança.