UMA HISTÓRIA DE FAMILIA

WESTERMAN | YOUR HERO IS NOT DEAD (UNACCOMPAINED)

Deixara de acreditar em “sempre” e em “nunca” , decidira viver no meio.
O meio, nas coisas do viver, é practicamente tudo.
Os extremos são sonhos disfarçados de felicidade.
Deixara de acreditar que a vontade se acordava com o despertador,
E passou a ir dar um mergulho ao mar todas as manhãs,
Um pode assim sentir o corpo a funcionar em pleno.
O Inverno, o frio, a chuva, nada servia de desculpa,
As excepções eram as fraquezas dos homens.

Luis Calçada de Abreu iria dentro de uma semana chegar aos 80 anos, numa condição física e mental inacreditável. Todos lhe gabavam o porte atlético e invejavam-lhe as corridas de fim de semana que deixariam muitos miúdos de 25 anos numa situação desconfortável.
Era uma homem de média estatura, uma pele elástica que não permitiu a entrada das rugas na festa que era a sua vida, nem tão pouco o cabelo lhe caiu nem tentou ficar branco. Nunca fumara, bebia muito raramente um copo de vinho tinto, de resto bebia sumos naturais de fruta da herdade da família, e muita água durante o dia de trabalho. O senhor Mendes, o seu motorista há já cinquenta anos e seu confidente quase desde então tinha sempre três garrafas de vidro que havia comprado no Harrods, enquanto esperava pelo Engenheiro Luis que estaria numa reunião durante pelo menos três horas – tinha-lhe dito – “Senhor Mendes, vá dar uma volta, aproveite, eu se precisar de esperar entretenho-me a caminhar um pouco aqui pelo bairro e o ponto de encontro é aqui mesmo. Aproveite que Londres com bom tempo é coisa rara!” – acabou a frase já com a mão na porta para a fechar, tendo deixado claro apenas com o olhar que ordens eram para cumprir e que desta vez nem a porta lhe viria abrir como fazia sempre – “Deixe-se estar, homem, deixe-se estar!”.
Foi ao Harrods, ficou tão maravilhado com aquilo que comprou um mimo para a sua mulher, outra para cada uma das suas filhas e três garrafas de vidro de um designer nórdico qualquer e que passou a vida a encher de água para que nunca faltasse água ao Engenheiro Luis. E cada vez que o Engenheiro Luis saía do carro o senhor Mendes entregava-lhe uma garrafa cheia para ele levar para as suas reuniões, encontros, o que fosse, cada um tem o direito à sua privacidade.

Há que dizer que o Engenheiro Luis Calçada de Abreu era um homem conhecido por todos de ser irascível, prepotente, autoritário, insensível e cruel até. Em grande medida tudo isto era verdade, tanto que todos esses adjectivos eram corroborados até pelas pessoas que lhe eram mais próximas: a mulher, os filhos, colaboradores, os altos cargos das suas empresas, e quanto mais se subisse na hierarquia das empresas mais isso era assunto. No entanto todos eram unânimes em dizer também entre dentes que era um homem extremamente inteligente, esperto como uma raposa e com uma visão tal que tudo o que fazia ou em que tocava nascia, crescia e depois ainda se multiplicava. E assim era, fazia-o com apenas cinco horas de trabalho diário delegando de uma forma muito própria que nem sempre agradava a todos, na maior parte das vezes a ninguém. Havia no mundo inteiro, e mundo era coisa que não faltava a Luis Calçada de Abreu já que tinha negócios nos cinco continentes e muitas horas de voos e inúmeros conhecimentos pelo mundo fora, duas pessoas que jamais retratariam o Engenheiro desta forma: o senhor Mendes e a sua filha Sofia, a mais nova dos seus cinco filhos, três raparigas e dois rapazes, todos homens e mulheres feitos e que viviam na sua casa, excepto Sofia que era médica em Portugal, vivia no centro de Lisboa, mas que fazia 6 meses por ano de voluntariado noutro continente qualquer e no país mais necessitado dos seus conhecimentos e coragem.
Por Sofia, menina já com 38 anos, a sua pequenina Sofia, Luis tinha uma adoração transcendental que ninguém podia entender. Bem, Mendes sabia explicar, até muito bem, soube-o eu pela primeira vez que almoçámos juntos no Mesa de Bairro, enquanto o Engenheiro Luis Calçada de Abreu foi ver uma exposição à Culturgest, de um qualquer artista plástico americano muito conceituado, a convite do próprio e no dia anterior à abertura, só para que ele fosse o primeiro a escolher o que quisesse comprar. O senhor Mendes apressou-se a dizer – “Senhor António, isto vai demorar, ele fica horas à conversa com o artista e ficamos com a sensação que não está a dar atenção nenhuma às obras e depois quando se despede do artista diz-lhe baixinho quais as peças que quer comprar, mas fá-lo por descrição, sabe? Não é por altivez, percebe?”

Claro que percebi, já tinha percebido por Sofia quando estive com ela a propósito do lançamento de um livro que o Engenheiro tinha mandado editar por uma editora que tinha, escrito por um colega de Sofia que era também médico e que nascera tão rico que mal fez o exame à especialidade pirou-se para Angola, terra onde havia nascido e onde deixara os pais para lá morrerem antes de o voltarem a ver, e já levava umas três voltas ao mundo como Médico do Mundo.
Disse-me o senhor Mendes que o Senhor Engenheiro nem pestanejou – “Não lhe publicam o livro em lado nenhum? Com uma história dessas? Era o que faltava! Não seja por isso, publico eu!”. Diz o Mendes que Sofia ficou a olhar para ambos sem perceber nada. Mendes encolheu os ombros dizendo baixinho enquanto o Engenheiro procurava já com toda a calma a garrafa de água – “Menina Sofia, sabe que o seu pai tem uma editora, não sabe…?”. Não, claro não sabia. Sofia era das que menos sabia dos negócios do pai, tinha escolhido outro caminho – o dela – ao contrário de todo o restos dos irmão tinham escolhido o caminho do pai, mas limitando-se a ficarem sentados à espera de um pagamento mensal que nunca chegava para nenhum deles, mas todos na esperança que um dia tudo ia ser diferente.

Já sentados à mesa, com um tinto escolhido por mim e as entradas escolhidas pelo Mendes, continua ele – “Seguiu-se uma gargalhada de Sofia, que não imagina senhor António, seguida da gargalhada do seu pai que se lhe juntou, os dois a rirem sem parar. Juntos, pai e filha, iguais na gargalhada, cúmplices como se tivessem roubado juntos um dispensador inteiro de pastilhas elásticas na porta de uma mercearia e saído os dois a correr rua abaixo, de tal forma que o Engenheiro Luis até serviu um copo de água à menina Sofia que não conseguia parar de rir. Aquilo é um amor muito grande, sabe? E sabe porquê? Porque ela é a única pessoa verdadeiramente boa naquela família. E saiba que é a única que não anda já, nem andará nunca como o resto da família, digo-lhe desde já senhor António, a fazerem contas de calculadora à herança enquanto sopram velas atrás de velas e olham o homem com cada vez mais saúde. Devem pensar que aquilo só vai lá com um osso de frango entalado na garganta, mas sabe que mais? Sabe…?” – E fez uma pausa com a cabeça esticada para mim à espera da minha resposta. Respondi que não fazia ideia porquê, obviamente. O Mendes não se segura e arranca numa gargalhada descontrolada que até chocou os clientes e funcionários do restaurante. Acalmou para me esclarecer o motivo do seu descontrolo e, meio em tom de desculpa, diz-me – “Só que o Engenheiro é vegetariano!” – E caímos os dois de duas gargalhadas abaixo como quem cai de um daqueles escorregas dos parques aquáticos, aquilo foi um pagode tal que cada vez que vou ao “Mesa de Bairro” sinto que todos os funcionários se lembram bem de mim e se me vêm acompanhado dever rezar para que não me demore e que vá lá ter uma conversa séria com quem me acompanha.

Nesse almoço fiquei a gostar mais do Engenheiro Luis Calçada de Abreu. Sabia-o tanto como um homem rico como um homem duro, já havia estado com ele, testemunhado as suas boas maneiras sem presunção alguma, via-se que tinha uma educação formal que teria certamente sido dada com austeridade, mas desprendera-se de qualquer vontade de dar o troco só para marcar posição, mas não deixando de ser extremamente formal e educado, percebia-se que era um homem que não fazia uma segunda tentativa de levar uma sua decisão em frente, incomodasse a quem incomodasse, mas praticava a descrição acima de tudo. Mas havia outro lado no Engenheiro Luis Calçada de Abreu, que se revelava apenas na intimidade mostrando de forma cristalina que de louco e de excêntrico tinha um pouco mais do que um pouco. Acontece que as únicas pessoas (que se saiba…) que tinham acesso directo a esse Luis Calçada de Abreu era a sua filha Sofia e o seu motorista e confidente, o senhor Mendes. O senhor Mendes, diga-se, tinha a educação do Engenheiro Luis, sem mais nem menos, tinha pegado no volante dos carros do Engenheiro, que por sinal eram bons carros discretos que duravam muito tempo nas suas mãos, acabado de chegar do Ribatejo onde havia nascido e onde tinha sido criado por gente humilde e de bons valores, uma educação muito diferente mas estou em querer que o Luis Calçada de Abreu lhe viu todo o potencial. E acertou, não imagino uma pessoa tão fiável e tão fiel ao Engenheiro como o senhor Mendes.

Ontem, cinco anos depois do lançamento do livro do colega da Sofia, na Gulbenkian, num lançamento cheio de gente relevante, jornalistas e onde penso não ter visto o Engenheiro Luis a sorrir tanto nem tão orgulhoso de algum dos seus feitos, recebi o telefonema de Sofia àquela hora tardia. Seriam umas onze e meia da noite, ainda tive esperança que me estivesse a ligar porque me sabia acordado a essas horas e precisava de falar um pouco porque tinha chegado de um voo de 14 horas, com duas ou três escalas, vinda de um país com refugiados ou com um ditador qualquer que andava a dizimar o povo com armas químicas ou isso, mas a sua voz aos soluços deu-me a notícia mesmo antes dela me a dar. Estava inconsolável. O seu pai tinha morrido nos 86 anos

Vesti-me a correr e arranquei para o Beato. Fui fazer-lhe um chá a sua casa, estava destroçada e entre o tempo que passava com a cara escondida nas mãos e o tempo que passava a olhar-me nos olhos a acenar que não com a cabeça, escorriam-lhe rios de lágrimas pelas faces abaixo.
– “Toma. bebe um pouco, está quente, vai fazer-te bem” – Pegou-me nas mãos e soluçou-me me um “Obrigado”, lento como lento parecia o tempo correr naquele momento, depois pegou no chá e ficou com a chávena quente entre as mãos, olhando para fora da janela que tinha ao lado do sofá onde estava reclinada com um pijama de flanela e ainda um casaco escorrido, muito elegante em caxemira. Até eu fiquei comovido com a morte do Engenheiro Luis, sentindo-me estúpido por alguma vez ter sonhado em escrever-lhe uma biografia que me obrigaria a privar bastante com ele, que no fundo era o que eu mais queria, mas na hora da verdade nunca lhe consegui lançar o desafio. O que se pode pensar de uma pessoa que tem tudo, que é dono de uma fortuna que se multiplica a cada ano, e que depois tem como melhores exemplos o seu motorista e a sua filha mais nova, médica que vive metade do ano como e com as pessoas mais pobre do mundo e na outra metade é médica num hospital de segunda apenas para ganhar forças para a outra metade, vive numa casa modesta no Beato, cujo maior luxo é uma vista soberba sobre o Tejo e com dois quartos só para poder receber um colega dos Médicos do Mundo ou mesmo um refugiado durante uns tempos? Este homem não pode ter interesse algum que haja uma biografia da sua vida a circular por aí.

Estivemos três horas a conversar e foi aí que realmente posso dizer que conheci o Luis Calçada de Abreu, e um bom bocado mais o senhor Mendes que a Sofia amava como o tio que não teve nunca. Era giro o trio que aqueles faziam, formavam uma bolha só deles, cada um no seu lugar, na sua vida, cada um vivendo a diferença de cada um com respeito e admiração, nunca ninguém desrespeitava ninguém, era simplesmente bonito, e para mim aquelas três pessoas eram aquela família, só que não, sabia haver uma mulher execrável como esposa, como mãe, e não só para Sofia, era cruel com todos os filhos e com a “criadagem”, como ela própria lhes chamava entre a família. Sei hoje que Luis ficava louco com aquela maneira de ele tratar aqueles que dela tratavam. Ele, com toda a fama e proveito, imagine-se. Ao que parece Luis achava que os de casa deveriam ser agraciados. Depois o trabalho era outra coisa, nas suas palavras – “As coisas têm que acontecer. E para acontecerem tem que se lidar com muita resistência dos envolvidos, tem que se dar de caras com os que não tem interesse em que algumas dessas coisas aconteçam e as boicotam, há de tudo e os negócios não se compadecem com a vontade de cada um e muito menos se tornam rapidamente negócios de sucesso se o que for feito seja a soma das vontades de cada um a dividir pelo número de envolvidos. Alguém tem que mandar. E eu nunca tive problema algum em chamar a mim esse papel, até porque não podia esperar nada da parte da minha família pois do grupo das empresas só querem os dividendos da parte que já dividi, assegurando-me ainda assim que mandam lá menos que as telefonistas”.

Com Sofia sempre tinha sido diferente, ela prometera-lhe desde cedo que tiraria um curso, mas que seria de medicina. Luis ficou todo satisfeito porque era a única da família que ele julgava, num estilo muito diferente do seu, claro, que tinha perfil empreendedor e que era rápida a tomar decisões inteligentes e como não tinha negócio nenhum na saúde e considerava há muito uma área estratégica para as empresas, fazia todo o sentido, mas rapidamente se apercebeu, pela verdade e acertividade de que era feita Sofia, que esse curso não iria servir o grupo das empresas do pai, iria sim servir as pessoas, e as mais necessitadas, aqui ou em qualquer outro lado do mundo.
Luis ainda tentou durante cerca de um ano demovê-la desses objectivos, mas a verdade é que as razões de Sofia para tomar esse caminho não só tinham todo o sentido como o orgulhavam cada vez mais, até ao ponto que desistiu de lutar e começou a ajudar, perguntando-lhe sobre que países estavam em maiores dificuldades, enumeravam juntos os países que estavam em guerra, questionava-a sobre como ela via a sua vida emocional e sentimental num cenário desses, basicamente quis certificar-se que ela sabia mesmo ao que ia. E ela sabia-o muito bem.

E hoje, o dia a seguir ao de ontem, em que soube da morte do Engenheiro Luis Calçada de Abreu, de quase passar a noite em casa de Sofia a seu pedido, sinto-me bem. Vou a caminho do velório de um homem que tratou muito bem duas pessoas que muita falta me fazem no dia a dia, mesmo sabendo que na parte que toca a Sofia o dia a dia tem um espaço temporal diferente do meu mundo. Com o Mendes é quando se quiser, claro, desde que o restaurante seja bom…
Mas principalmente estou feliz por ter feito com Sofia aquilo que ela merecia e não aquilo que lhe apeteceu fazer na noite passada, eventualmente por estar carente quero eu pensar. Só que não, não é isso que quero pensar… Mas bolas! Não posso pensar outra coisa!
O que fiz, em vez de sucumbir a um desejo de anos, foi respeitá-la e respeitar-me a mim: se alguma coisa tivesse que acontecer entre nós havia para mim duas condições básicas que se verificavam: a sua forma de vida não seria um empecilho para mim, e não começaria naquela noite e naquele contexto. Também eu, como ela, merecia mais.

O dia está bom, soalheiro e sem vento, não há calor a mais, está perfeito. Será que Luis sabe neste momento o bonito dia que nasceu para dele nos despedirmos? Será que já nos vê?


Vou de carro buscá-la, como havíamos combinado antes de negociarmos que eu só sairia do sofá que ela tinha no quarto depois dela adormecer. E foi assim que o fiz, saí de fininho, com os sapatos na mão para não a acordar e fechei a porta devagar até ouvir o trinco dar sinal de se fechar.
Desci as escadas com os sapatos na mão, calcei-me dois pisos abaixo e só então desci para a rua, cansado, com sentimentos cruzados e contraditórios.
Chego à sua rua com lugar para o carro mesmo em frente à porta do seu prédio. Eu, de fato e gravata, botões de punho, lenço na lapela, sapatos de sola de couro e um chapéu no banco de trás do carro. Estava elegante e tudo condizia com a ocasião.
Estou eu a pensar se lhe ligo, se mando um sms, um WhatsApp e… aí está ela! Linda, elegantemente vestida de preto, mas com um vestido que cai firme, cintado, com um alfinete de peito com uma pedra encarnada no meio de uma flor de ouro, casaco debaixo do braço. Tudo deixa que a minha imaginação perceba que tem um corpo perfeito, um rosto fresco, tratado com dedicação e cosmética, claro, mas dando para ver que nada do que está por baixo é algo que eu não gostava de ver todos os dias, sei que sim, Sorri-me e acena-me, saio do carro para lhe abrir a porta mas não sem antes a cumprimentar. Para mim não há dúvidas, não há cá beijo na boca, não sei se algum dia haverá, mas hoje não.

– “Bom dia, conseguiste dormir bem? – Pergunto com o sorriso mais verdadeiro, embora contido dado o contexto, e ela envolve-me a cara com as duas mãos para a rodar e dar-me um longo beijo numa face. Ainda bem que foi assim.
– “Dormi sem parar, saíste com pés de gato e nem dei por nada. Olha, António…” – E olha-me mesmo no fundo dos meus olhos enquanto repousa a sua mão no meu joelho para eu me certificar que será verdade tudo o que disser a seguir- “Obrigado por teres ficado no sofá do meu quarto até eu adormecer, acho que não calculas o quanto foi importante para mim ontem que o fizesses, sabes?”
– “Ainda bem Sofia, e ainda bem que dormiste de seguida, faz diferença.” – Abro-lhe a porta do carro, deixo-a entrar, e pergunto-lhe se quer alguma coisa – “uma água, alguma coisa para comer, já que vamos com tempo?” – Diz-me que não, que tinha bebido todo o chá que eu tinha feito para toda uma tenda de refugiados, logo pela de manhã, fresco, e pergunta-me se posso abrir a capota que está um dia lindo.
– “Sofia, eu sei que estás de chapéu, mas mesmo assim… sabes que vais chegar toda desgrenhada, não sabes?”
– “António… António… Só não vou insistir porque a última coisa que quero é que reparem em mim e que me venham com atenções, mas escolhes-me uma boa música alegre ao menos e deixamos a capota para outro dia?”
– “Claro que sim” – E sorri-lhe com ternura.

A primeira coisa que me ocorreu não lhe dizer foi que não era possível que ela não chamasse a atenção porque estava linda e de uma elegância extrema. Não porque eu tivesse algum problema em dizer-lhe tal coisa, mas não no dia de hoje, afinal também eu tenho as minhas formalidades e os meus princípios. A segunda coisa que não me passou despercebida foi ela ter dito que a capota ficava para uma próxima e a terceira foi ficar inseguro se ela me teria pegado na cara para me beijar na face porque punha a hipótese de me passar peça cabeça beijá-la na boca, mas depressa achei que não lhe passaria isso pela cabeça, claro que não. E tudo isto me passou pela cabeça enquanto lhe dizia que ia escolher uma música dos Phoenix e que ela ia adorar.

Hoje, três dias depois do funeral do Engenheiro Luis Calçada de Abreu, sinto que a nossa relação, entre mim e Sofia, nunca mais será a mesma, somos cúmplices em alguma coisa e ela já me ligou umas seis vezes entre o tempo todo que estivemos juntos neste dias, fui a sua companhia no velório do pai, na missa, no ritual do funeral e cremação, deu-me a mão e abraçou-se a mim vezes sem conta, o que até chamou demais a atenção do resto da família, já chorámos os dois abraçados um ao outro, já chorámos ao telefone… O senhor Mendes está um trapo, também já falei com ele ao telefone umas dez vezes. O que sei, mas não lhe digo porque me confidenciou a Sofia, é que o futuro do Mendes e de toda a sua família está assegurado pelo menos por duas gerações, mas também não é isso que o faria sentir-se melhor, nada lhe trará o grande amigo de volta e pelo menos sei que ficará bem mais feliz quando for chamado a estar presente na leitura do testamento e ouvir pelos próprios advogados do Luis, estou em crer que nas próprias palavras do seu patrão e amigo, que embora tenha partido, pode continuar a contar com o seu amigo Luis. Rio-me só de pensar na reacção do resto da família Calçada de Abreu.

Agora, neste preciso momento, estou em Monsanto, num género de um secret spot que tenho. Tenho dois, este é um deles, é para aqui que venho às vezes quando preciso urgentemente de mim, de me encontrar mais um pouco, sabe-me bem, é um sítio especial, praticamente abandonado o que é óptimo para quem se quer encontrar mais um bocado. Há muitas emoções a correrem-me no sangue, sem receios, felizmente. Vou querer dar muita atenção ao Mendes, quero estar lá para a Sofia e não tenho medo de nenhum cenário, preciso tanto do amor dela, como preciso da sua sincera amizade, sinto que vou sair sempre a ganhar. E ela também, é uma miúda reservada que não se dá com meio mundo, apenas trata de todo o mundo. Admiro-a muito por isso.
Recosto-me na relva a olhar o céu pintado com umas pequenas nuvens branquíssimas, o sol aquece-me a cara em cinco segundos.
Acho que vou adormecer, só tenho que escolher com o que vou sonhar, sem medo de falhar.