UMA TEMPESTADE CHAMADA NADIA

NADIA REID | PRESERVATION

Eram as sete da manhã no relógio de cabeceira dele e abertas que foram as janelas naquele momento, podia ver a cidade a preto e branco.
“Porque é que chove sempre a preto e branco?” – Perguntou António para dentro de si sem esperar a resposta que não se fez.
Nada ecoava na casa, estava só. Só chovia fora de si, antes assim…. ou já estaria habituado a um qualquer Inverno que se instalara na sua existência, o empurrara para os livros de poesia como um castigo divino onde era suposto aprofundar o mais possível aquilo de que é feito o ser humano por dentro, ele próprio tantas e tantas vezes e principalmente, descascar as pessoas até elas se tornarem esqueletos de laboratório, sem pele em que tocar?

Há dois anos que vivia dentro de si próprio e pouco saía dessa casa sem paredes, mantendo uma vida social por não ter fechado as portas da sua casa das paredes. Nessa ele pendurou vida, na forma de fotografias, plantando memórias para dali ver o futuro no branco de que se faziam ainda as paredes. No chão plantou plantas para que houvesse mais vida por ali, para que mesmo em casa pudesse ter uma imagem da natureza.

Tinha talvez descurado a atenção, relevando esse papel para si próprio, mimando-se a ele próprio, dando-lhe a atenção toda que julgava merecer sem se questionar se sabia o que estava a fazer, mas sabia-se e sentia-se seguro de certa forma – “Quem não sobe ao topo da montanha não sente tudo aquilo que pode ver a perder de vista, mas também de lá não cai e evita partir-se aos bocados” – Esta era uma ideia que morava dentro de si e que talvez tivesse verbalizado uma vez numa conversa comigo, mas como digo – “talvez” – não estou muito certo e pouco importa, já que esta ideia certamente ocupava um espaço firme dentro de si.

Sentou-se aos pés da cama e escolheu um disco que pôs a tocar no gira-discos que tinha no quarto. “Preservation”, chamava-se o álbum, um belíssimo disco de Nadia Reid. Os primeiros sons de um disco a tocar, imediatamente antes da primeira música, a agulha a percorrer as estrias no início do disco, onde em vez de se fazer apenas silêncio, ouvia-se aquilo que António dizia ser “ouvir apenas o disco, a agulha, o gira discos o amplificador e as colunas, sem música”. Esse momento que tantas e tantas vezes desejava que fosse um disco inteiro acalmava-o. Era como que o primeiro tema do álbum, aquele que ninguém ouvia e portanto de que nunca ninguém falava e jamais era alvo da crítica, coisa que não se pode nunca encontrar num cd.
Esta era uma das coisas que gostava no vinil, sei-o.

“Preservation” é também o nome da música de abertura do disco, onde Nadia Reid entra logo com um dedilhar na sua guitarra eléctrica que dava todo o sentido à vista cinzenta da cidade que António tinha à sua frente, sentado aos pés da cama, de pijama e olhos perdidos no horizonte ou para lá dele, passando por cima dos telhados e das cúpulas e das torres das igrejas, dos edifícios de uma Lisboa histórica que se via também dos barcos, mas não hoje, hoje os barcos não tinham vista para Lisboa e podiam ver nada mais do que viam em alto mar.

Kilas, o seu podengo e melhor amigo, tinha ido passar o fim de semana fora com a sua filha – “Pai, precisas de descansar, andas muito cansado” – Dissera-lhe, sabendo que esse argumento funcionava quase para tudo, talvez ele gostasse de saber que alguém se preocupava. Mas era apenas isso, a verdade é que quase nunca se sentia cansado.

O que andava era farto, farto que os versos lhe levassem toda a sua atenção, deixando-lhe apenas a disponibilidade para que a sua família e melhores amigos se sentissem importantes para si e, principalmente, queria estar lá para eles, sabiam lá eles o que era preciso acontecer às vezes dentro dele para que tal pudesse acontecer.
Ia conhecendo pessoas, circunstancialmente, numa vida social que mantinha mas procurava não cultivar mais do que o seu desejo lhe permitisse. O que desejava hoje era pouco, acabava cedo, parecia ser um fio de um novelo que ao puxar percebia que afinal já alguém havia cortado o fio que não dava para mais do que três ou quatro nós. Também não se ficava a lamentar por isso. Mas ao fim de vários novelos não há como não pensar – “Partiu-se qualquer coisa cá dentro, num sítio inalcançável, onde não há mão nem pinça que chegue lá para colar” – pensava amiúde,

Nadia Reid era dona de uma voz que só a tem quem é capaz de sentir, quem não teme ser frágil, mas é forte que nem um búfalo, mas um búfalo que sabe dar descanso à sua natureza e é capaz de parar para sentir. Nádia era dona de uma voz e de uma guitarra eléctrica e nenhuma delas podia emprestar e fazer-se uma música de Nádia Reid com outro instrumento, fosse ele qual fosse. António sentia com Nádia Reid que era sempre um dueto que cantava para ele.

Pensou que não havia escolha mais perfeita para musicar a vista daquela manhã de Inverno, no calor de um quarto iluminado com luz branca, pouca, mas limpa como era limpo o seu coração. Havia sido “zerado” e ele sentia-se limpo. Eu sei que no meio da paz que conseguiu alcançar, e porque tenho a felicidade de lhe ser muito próximo, há um buraco no meio de António que ele ama tanto quanto se ama a si próprio (há poucas pessoas com tanto amor próprio não caindo no erro de perderem todo e qualquer altruísmo), e esse buraco está vazio faz tempo. Ele sabe-o, vive bem com isso, aprendeu a viver com esse buraco de ar que por vezes se torna vácuo, mas ele escolhe sorrir numa expressão leve e muito diferente da sua gargalhada habitual, mas consegue esboçar um honesto e verdadeiro sorriso de quem se habituou a não viver com tudo, levando uma vida emocional mais modesta, mais verdadeira também.

Levantou-se para pôr a agulha no princípio do disco, naquele espaço tremendamente musical que vive por uns segundos e que antecede “Preservation” e pensou, quando começou o dedilhar da guitarra que se fez logo acompanhar de seguida pela voz quente e confortável de Nadia Reid, que é isso que tem feito: preservar-se. E desta sentou-se ao pés da cama, de pernas cruzadas, braços caídos sobre os joelhos, e respirou o ar do seu quarto já refrescado por uma janela entreaberta e fechou os olhos, entregando-se à música.

Julgo que a maior parte das pessoas catalogam uma música como esta de “música triste” e jamais a escolheriam para saborear uma manhã de tempestade cinzenta que estende o seu manto pela cidade. Iriam emudecer, iriam saborear uma espécie de angústia perante o cenário que tinha dado início àquele Sábado de Inverno. Mas eu sei que António o vê com beleza, e se há coisa que nunca o deixará triste é essa arte que encontra na música, a combinação de vários talentos que se juntam para fazer algo mágico e que nunca foi obra da natureza, mas que a completa e nunca contribuirá para a destruir como quase tudo o que o Homem faz para seu conforto. Na música, aí, o homem foi perfeito na sua criação