VIOLENCE IN A QUIET MIND

HAUX | CALICO

Sabes, miúda? Esforças-te tanto mas tanto para matares alguém dentro de ti que te esqueces que esse assassinato não deixa de ser, de certa forma, também uma escolha do outro em deixar-se matar.

Pode ser para ti um caminho com regresso, com um destino por ti forçado mas que te é negado pela tua própria vítima. Essa pode negar-se a morrer dentro de ti, fora de ti, escolhendo ter a história da sua vida por inteiro, sem buracos negros.

É uma estratégia desadequada às nossas possibilidades como ser humano, dotados de emoções que por muito que se recalquem aparecem sempre depois de muitas das nossas curvas, sob formas estranhas de existência e expressão, ora somatizadas em problemas de pele, de estômago, noites mal dormidas e presentes mal amanhados para se fazerem futuros.. 

É por isso que escolho sempre a minha verdade, instalada ali entre a profundidade da minha consciência e a minha pele. Sei que pode doer, podes dizê-lo, podes nem dizer que arde a curar e seguir sorrindo, mas não há fractura que não doa sem amputação, pelo que nos resta olhar a dor de frente, e a raiva e a saudade, que se misturam com surpresa, ou seja lá o que for que faz doer e arder.

Só assim damos entrada no futuro inteiros, preparados para o viver em pleno, seja lá ele feito de que matéria for, com que forma se apresentar. Mas como depois da dor se segue sempre uma sensação de alívio inigualável, talvez o futuro seja um lugar tranquilo e saudável onde podemos encostar a cabeça e esquecer os amargos do fim dos dias cinzentos que rebentam como ondas numa praia de noites escuras mal dormidas.

Afinal a vida tem um ordem natural que não se resume ao óbvio e há mais vida na arte do encontro connosco que na fuga de nós próprios, porque os fantasmas sempre se escondem com arte na bagagem.