A PESTE A CÉU ABERTO

STEPHAN MOCCIO | OW

Nas cordas deste piano há mais mundo que nas notícias,
Que te inundam o pensamento e te arrasam a esperança.
Porque há cidades a preto e branco que definham sob um céu azul.
Há medo, há medo de ter medo, e há lobos que de medo se alimentam,
Ferozes, que percorrem a cidade branca, que já se espraiou um dia,
No rio de felicidade que edificava já um modesto orgulho.
Mas a morte acordou e foi para a rua, impiedosa,
Aos olhos de quem a vê,
Mas pelas costas dos que escolheram negar a sangria,
Mas que seguiram o mesmo rumo que todos, incrédulos, em negação,
Não sabendo, idiotas, que a morte não joga jogos de sorte e de azar.
É bruxa que acerta e não concerta planos com ninguém,
Só os lobos rondam a morte, à distância, a medo, esperando de fome.


Um pardal pousa no parapeito da janela de uma menina,
Trocam olhares de esperança, desejam um ao outro que a nuvem passe,
Que o sol volte a reflectir as cores dos telhados de Lisboa,
Que hoje são uma paleta de cinzentos a céu, aberto, azul.
Nesta recatada foz de um rio do mundo chamado Tejo.
Já nada cheira a bica escaldada, tudo se serve frio, escondido.
Só a morte está pronta a servir, silenciosa, em segredo, pelas traseiras,
Passando as portas à noite, fora das horas da luz azul em tela cinzenta.
Um pardal pousou um dia na janela de uma menina,
Trocaram olhares alegres de cumplicidade,
Como quem sabe sobre o fim da história misteriosa,
A esperança mede-se pela alegria do sorriso de uma criança.
Que se cumpra então o que a criança sorrir.