UM CONTO DE “CÃOVALHEIRO”

KHATIA BUNIATISHVILI | LA JAVANAISE (SERGE GAINSBOURG)

Também toca muito Bach, mas embora eu adore Bach assim como preciso de beber água, gosto especialmente de a ouvir tocar a “La Javanaise” porque ela lhe dá andamentos divertidos e é um tema feliz. O Miles começa a abanar a cauda e a acelerar o passo quando começamos a ouvir a música, coisa que acontece quando ainda estamos a ver a porta ao longe, mas Javanaise, nome com que baptizámos a rapariga, gosta de tocar de porta aberta, dir-me-á um dia que gosta do ar e da luz a entrar e que, entre peças, gosta de ouvir as pessoas na rua dela, onde practicamente não passam carros e onde ainda há bastantes crianças a brincar na rua.

Mora no bairro ao lado do meu, rua com rua, porta com porta, já que uma porta pertence ao meu bairro e a porta logo a seguir pertence ao bairro vizinho, porta da casa onde ela mora. Nessa casa onde começa o bairro vizinho mora uma rapariga que estuda piano eu eu chamo-lhe Javanaise porque já a ouvi a tocar a “Lá Javanaise” de Serge Gainsbourg quando por lá passo com o cão. O Miles, o meu cão, pára sempre em frente à porta dela. Ela tem uma casa que não é um prédio e tem apenas um piso ao nível do olhar do Miles com um piso único e a entrada dá para uma primeira sala que dá abrigo ao seu piano de cauda e pouco mais.

Miles é tão fã de Javanaise que me constrange, e claro que Javanaise, embora não tirasse nunca os olhos das teclas do piano, nos pressentia e nos via ali com regularidade, com a sua visão periférica. Até que um dia, claro, acabou uma valsa mesmo quando Miles se sentou de frente para a porta, como que em sentido, com o seu porte elegante, como um homem de formalidades e de smoking num concerto, e ela chamou-o para dentro. Ele olhou para mim e como eu não tive qualquer tipo de reacção, dado que por um lado não tinha chegado ainda ao ângulo de visão dela e por outro percebi o que estava em causa e sabia que se lhe desse autorização teria que ir eu lá dentro buscá-lo, fingi que não percebi e segui caminhando mais lentamente, esperando começar a ouvir uma peça de Bach.

Mas Javanaise não desistiu e saiu a porta de casa quando já eu estava a dez passos da sua porta e disse com o sorriso mais simpático do seu bairro (e do meu, já agora) – “Olá! Podem entrar para o…?” – e percebeu que não sabia o nome do cão. Eu antecipei-me e respondi-lhe que se chamava Miles.
– “Miles… de Miles Davis?”
– “Sim, de Davis, Miles Davis” – e sorrimos os dois.
Miles olhava para os dois como quem pensa “E então? Deixam-se de vergonhas humaninhas e entramos para ver Javanaise a tocar piano?”
Javanaise insistiu para entrarmos deixando claro que já tinha percebido que gostávamos de a ouvir tocar sendo que mais sabia que éramos de passagem assídua pela sua porta.
– “Por favor, entrem só um pouco para que o Miles possa sentar-se ao meu colo e experimentar tocar um pouco de piano.
Eu lá fiz sinal a Miles que podia entrar, e ainda nem eu tinha desfeito a expressão do olhar que o autorizava e já ele estava sentado ao lado da banqueta de Javanaise, em recta postura, preparado para o seu momento erudito do dia. Um orgulho de cão que nunca me deixava ficar mal.

Miles era meu companheiro de muitas e muitas horas de audição de música e eu conhecia-lhe bem os gostos. Era impressionante o que gostava de música, e muitas eram as vezes que estava no fresco do meu quarto e mal eu punha um vinil ou um cd a tocar vinha de lá de rabo a abanar e deitava-se de costas para o sofá, voltado para as colunas, bem no meio delas, como se ouve melhor a música. Um audiófilo, o Miles, sabia apreciar música como a maior parte dos humanos não sabe.

– “Ele gosta muito me música não é….? Já agora, como se chama? ” – E não escondo que fiquei orgulhoso de uma rapariga com uma formação musical tão profunda perceber e perguntar pelos gostos musicais do meu cão.
– ” António, chamo-me António, somos mais ou menos vizinhos, por isso é que passamos aqui practicamente todos os dias” – Disse eu como que justificando a figura que habitualmente fazíamos os dois parados à sua porta – “E sim, ouvimos muita música lá em casa e ele liga quase tanto à música quanto eu, embora prefira jazz e clássica e não tanto outros estilos que oiço tambem, indie rock, indie pop, synth pop, mas gosta de fado, é verdade, e de viola clássica, adora bossanova, por exemplo, é um crominho”
– ” Que giro. Posso pegar–lhe?” – Perguntou acautelando-se para não fazer nada que contrariasse a educação de Miles. Achei graça e admirei o cuidado.|
– ” Já viu bem os olhos deles que não a largam? É disso que está à espera, mas o que não fará certamente é saltar-lhe para o colo, é um gentledog, sabe? Bem, também não sei o seu nome, desculpe nem ter perguntado há pouco.”
– ” Que disparate, não tem nada que pedir desculpa, sou Rita ” – e apressou-se, embora medindo os seus passos, a dar-me um beijinho, que eu não esperava mas que correspondi com igual naturalidade e educação.
– “O que acha que…. bem, podemos tratar-nos por tu, não podemos?” – E fez a pergunta sem quaisquer excessos de confiança e com honesta informalidade. Percebia-se que era uma rapariga de uma educação e simpatia singular. Era bonita também, mesmo muito bonita, para dizer a verdade, e via-se que tratava bem do seu corpo, tinha movimentos ágeis e seguros, próprios de quem teve e tem uma actividade física regular.
– ” Claro que podemos, Rita. Sabes? Tenho a certeza que o Miles gostava de ouvir ‘Javanaise’ do Serge Gainsbourg, é das suas preferidas” – E olhei para Miles como quem espera confirmação.
– ” Gostas de Serge Gainsbourg? – Perguntou-me como que espera um sim como resposta.
– “Para te ser honesto, Rita, não conhecia antes de conhecer-mos à tua porta, mas depois de perceber o que era comecei a ouvir e sim, gosto muito”
– ” Estás a falar a sério?” – Ficou espantada com a resposta, não estava à espera, mas fez uma expressão contente.
– “Pergunta ao Miles, ele nunca me deixa mentir”

Claro que Rita, que não imaginava que lhe chamávamos “Javanaise”, mal fez sinal a Miles para ir para o colo dela, e depois de eu assentir ao olhar que Miles me fez como que perguntando se podia, ele foi suavemente para o colo dela. Rita pegou-lhe nas patas e com a mão direita pegou-lhe na pata esquerda e pousou-a sobre a sua mão direita, pedindo-lhe que deixasse ficar assim a pata. De seguida fez a mesma coisa com a pata esquerda de Miles, já usando a sua mão direita com a pata de Miles colada à dela. Eu não consegui não dar uma pequena gargalhada pouco sonora para não dar cabo daquele momento que registava com os olhos e com o coração, afinal o meu cão ia tocar piano pela primeira vez.

Rita começou a tocar “La Javanaise”, e Miles, como um bom aluno iniciado na escola de música, portou-se lindamente e eu confesso que não senti grandes diferenças para o que estava habituado a ouvir, primeiro nos nossos passeios e depois em casa, quando finalmente descobri o que era e fui a correr comprar um disco que tivesse essa peça, que é sem dúvida de uma beleza extrema.
Mas ali estava ele, de patas em cima das mãos de rita que percorriam as teclas do piano como quem faz ginástica acrobática com os dedos duas vezes por dia. Impressionante. E Miles sempre a fazer tudo certo

E ali ficámos uma meia-hora naquilo e até eu me sentei na banqueta a fazer uns graves simples enquanto Rita fez um esforço tremendo para sair do andamento da música como quem anda a brincar com o carro e o traço contínuo numa estrada de vista desimpedida, trespassando-o de uma lado para o outro e assim sucessivamente numa série de suaves desvios de trajectória. Rimo-nos da minha falta de jeito, principalmente eu.

Na despedida perguntou-me se numa próxima oportunidade podíamos fazer ao contrário e ser ela a juntar-se a nós num passeio pelo bairro. Claro que lhe disse que sim e confesso que o fiz com gosto, transparecia uma bondade espertíssima e deixou-me curioso. Só de música tínhamos muito que falar. Miles estava radiante, e sentado já no passeio entre nós, esticava a cabeça para não perder um segundo que fosse da nossa conversa.

Combinámos que no fim de semana assim faríamos, e lá fomos nós, eu e o meu cão audiófilo, fazer o caminho de volta para casa.
– ” Miles, tu sabes que eu estou muito orgulhoso de ti, não sabes?” – E dei-lhe um biscoito, dos que andavam sempre comigo para lhe dar quando se portava como um “cãovalheiro”, o que era sempre, na verdade.
Caminhou até a casa muito junto a mim, roçando o corpo nas minhas pernas, como que me querendo demonstrar agradecimento pela experiência.

Nessa noite lembro-me de me ter deitado e ter revisto a cena de Miles a tocar “La Javanaise” com o orgulho de quem vai à festa da escola do filho e descobre que o filho é quem melhor toca viola na escola, o vê em palco, olha para os ouros pais que não tiram os olhos de cima dele, o que por um lado lhe enche o peito de orgulho mas por outro pergunta-se “Mas onde tenho eu andado com a cabeça para não ter percebido isto mais cedo, será que ainda venho a tempo?”. Mas não, não era a mesma coisa, quem podia imaginar Miles a tocar piano de cauda? Nem eu. Se a máxima de que cão-que-ladra-não-morde é um mito, imagine-se o que será cão-que-gosta-de-música-toca-piano.

Miles dormia já na sala, na sua cama, depois de termos ouvido a faixa juntos com ele muito concentrado na audição enquanto eu imaginava que ele pensava: “Nem acredito que toquei isto hoje”
Fui-me deitar e pus a tocar o disco de Khatia Buniatishvili, onde tinha descoberto “La Javanaise” e deixei-me dormir embalado pela coluna de cabeceira, em modo “sleep timer”, sem saber ainda hoje se cheguei à faixa que nos tinha feito o dia.