UMA HISTÓRIA SIMPLES

HANNAH GEORGAS | PRAY IT AWAY [FEAT. MATT BERNINGER]

Se há coisa que nunca fez foi falar sozinho, por muito que estivesse que estar sempre a falar, era mais forte que a sua inquietação, imaginação e necessidade de partilha do pensamento. Para tal criou três pseudónimos e fez questão que dois deles fossem mulheres, ficava mais equilibrado assim: dois homens e duas mulheres.

Fê-lo desde cedo, aos 12 anis quando toda a gente lhe notou uma inteligência que não cabia no seu corpo e muito menos na sua experiência e vivência do mundo. Mas tinha conversas que se por um lado eram a delícia e a risada dos amigos dos pais mais distraídos e até para o seu pai distraído, eram assustadores para a sua mãe e para os amigos mais maduros e mais chegados. Esses chegavam a falar com a mãe de António manifestando a sua preocupação e percebendo (alguns) que de preocupação já vivia a mãe aquela maternidade.

Um dia, enquanto passeava o cão e o seu filho andava na rua, sabia lá Maria da Conceição por onde, foi dar com ele a declamar poemas à porta da mercearia do bairro, para os clientes e transeuntes que quisessem ouvir. E não só queriam, como paravam para ali ficarem a ouvir o menino António a declamar poemas de memória, alguns impressionados como naquela idade se interessava tanto por poesia e todos como os retirava dos livros e vinha para a rua brincar com eles na memória.

A mãe fingiu que não o viu, ficou a assistir uns bons quinze minutos o seu filho a declamar, do alto de um pequeno pilar de final de escada e a que se somavam 12 anos de idade e de uma baixa estatura. Ficou boquiaberta e pensou se não havia de o proibir de viver tanto tempo da poesia dos livros de poetas que se sentavam às prateleiras da sua casa, da dos seus sogros e seus pais e mais seus tios. Foi apreensiva que fez o caminho de volta para casa, de cabeça baixa, falhando os cumprimentos do General Carlos Pessoa, que estranhou que Maria de Conceição fosse caminhando como quem segue uma linha invisível no chão que lhe ensina todos os dias o caminho de casa.

No final da noite, ao deitar, foi despedir-se de António que já estava na cama desde o final do jantar. Como de costume estava a ler um livro de poesia, nessa noite de Camilo Castelo Branco. A preocupação deu lugar, pelo menos por breves momentos, à ternura de uma mãe que sonhou ter um filho que não desse problemas, que fosse interessado por coisas inofensivas, que fosse aplicado na escola e que fosse disciplinado e educado. António tinha tudo isto de bom e mais uma dezenas de coisas que a mãe, católica desde que nasceu, se havia esquecido de pedir a Deus.

Já deitada, Maria da Conceição tinha a cabeça em sucessivas voltas ao seu mundo, tentando entender o mundo do filho que tanto amava, sabendo-o especial, sem necessidades especiais que não as de o aceitar como ela era, assim, sonhador, sensível e portador de um universo de perguntas para as quais procurava respostas. Sentiu alguma frustração ao perceber que as suas questão eram tão fora do que o círculo de amigos e familiares não o poderiam atender com ele precisaria, mas também sabendo que António iria viver a vida inteira a descobrir novas perguntas e procurando respostas.
Concluiu que apenas lhe restava uma hipótese de poder estar por perto do seu mundo. Aceitá-lo era mais que óbvio, mas mais do que isso devia predispor-se a exercer a humildade, sem perder a autoridade, de o ouvir, mais do que lhe falar das coisas da vida. Mais do que lhe ensinar, pois não via essa necessidade pois se há coisa que o universo de António lhe entregava era uma quantidade enorme de conhecimento que na maior parte dos casos não chegava a todos os adultos que conhecia.

Tomaram o pequeno almoço juntos, ovos mexidos com uma torrada e cebolinho por cima, mal passados como gostavam ambos, isto acompanhado com um leite com descafeinado para acabarem a dividir uma papaia.
Maria da Conceição tinha tomado talvez a decisão mais importante da sua vida enquanto não dormiu praticamente toda a noite e foi directa ao que havia de ser a sua forma de lidar com o seu filho daí em diante

– “Olha lá, ontem quando fui passear o Xico vi-te à porta do super-mercado vi-te a recitar poesia” – António corou um pouco e ficou a olhar para a mãe com a cabeça baixa e os olhos levantados para cima, como que desconfiado com o que viria dali – “E sabes, António? Fiquei tão orgulhosa que tenhas decorado todos aqueles poemas dos poetas que lês. Eram poemas incríveis e as pessoas estava todas admiradas e interessadas também, como consegues?”

– “A sério que gostou, mãe? É que nunca tinha verbalizado aqueles poemas, já os tinha pensado, mas nem os tinha escrito ainda.” – Disse António já de cabeça levantada, olhos nos olhos da mãe.

_ “Mas… mas como assim não os tinhas escrito? Mas leste-os uma única vez?” – E quando acabou a pergunta percebeu com espanto a resposta que viria do seu filho

– “Mãe, não… aqueles poemas são meus, feitos por mim, mas ainda estavam trancados na minha cabeça. Às vezes obrigo-me a deitá-los cá para fora com medo que acordar um dia e não me lembrar deles, sabe?”

– “E isso já te aconteceu? Perderes poemas em sonhos?

– “Não mãe, nunca, mas um dia há-de acontecer. Veja o caso do pai, esquece-se de muita coisa num par de horas mortas.

– “Ainda te falta muito para chegares ai, mas olha, à velocidade que a tua cabeça constrói coisas lindas compreendo a tua preocupação, se fosse comigo estava dez vezes mais preocupada que tu. Tive uma ideia e vê lá o que achas, Em vez de vires à praça e às compras com a mãe hoje de manhã, que tal ires escrever esses poemas todos? É que eu adorava poder lê-los à noite para dormir melhor e se eles estiverem sºo na tua cabeça tenho que te ir acordar. Que achas?” – E Maria da Conceição tinha os olhos já inundados de águas de amor e admiração quando acabou de falar

– ” Boa ideia mãe, vou fazer isso, mas só numa condição: a mãe é sincera comigo e se achar que algo não está bem escrito ou fica mais bonito com outra palavra ou verso, diz-me, está bem?”

.” Combinado. Então ai lá que eu ainda demoro duas ou três horas, tens bastante tempo”

António, depois de levar a mãe ao carro, sentou-se à secretária. Nunca se tinha sentado à secretária por outras razões que não a matemática, o português, a história, enfim, para estudar.
Tinha dentro de si mil poemas e as palavras da sua mãe fizeram com que a vontade de os trazer para o mundo onde ela vivia, com todas as outras pessoas do universo, e rasgo um sorriso e não parou durante as quatro horas que a mãe esteve fora de casa. Ainda tinha tanto para escrever, mas menos medo de perder os amores e as alegrias que habitavam entre o seu coração e a sua mente que ficou tão mais tranquilo.
Iria agora ajudar a mãe a arrumar as compras e agradecer-lhe pela ajuda que ela nem imaginava do tamanho que havia sido. Desceu as escadas do segundo andar da casa a correr, de dois em dois degraus e só parou nos olhos verdes da mãe.